Socorro! Crítica completa – Vale a pena assistir?

0
64

“Socorro!” é daqueles filmes que fazem o espectador mudar de opinião no meio da sessão — e não necessariamente para melhor. O que começa como uma narrativa de injustiça e sobrevivência rapidamente se transforma em uma história sobre manipulação, ambição e o desconfortável reconhecimento de que não há personagens realmente inocentes em cena.

A trama gira em torno de Linda, uma funcionária dedicada que construiu sua carreira ao longo de sete anos dentro de uma empresa familiar. Prestes a assumir o cargo de vice-presidente, ela vê seus esforços serem completamente ignorados após a morte do presidente da companhia. O controle da empresa passa para o filho do antigo chefe, que, por sua vez, nomeia um amigo para o cargo que Linda aguardava. A sensação de injustiça e frustração estabelece, desde o início, a empatia do público com a personagem.

Em resposta às reclamações de Linda, o novo presidente — interpretado por Will Poulter, conhecido por seu trabalho na franquia Maze Runner — decide lhe conceder uma “chance” de provar seu valor. Essa oportunidade se materializa em uma viagem de trabalho que, inesperadamente, termina em um acidente aéreo. O avião cai no mar, e ambos acabam ilhados, ao menos é isso que o filme faz o espectador acreditar durante boa parte do enredo.

Desenvolvimento

Nesse momento, Socorro! conduz o público por um caminho confortável: Linda surge como vítima, enquanto o chefe assume o papel do homem arrogante que finalmente começa a experimentar, na prática, o mesmo tipo de tratamento que antes impunha. A relação entre os dois parece evoluir, e o filme quase sugere uma jornada de redenção. No entanto, essa leitura é gradualmente desmontada.

A grande virada narrativa acontece quando Linda avista um barco se aproximando da ilha e, conscientemente, decide que ainda não é o momento de ir embora. A partir daí, o olhar do espectador sobre a personagem se transforma. A empatia construída até então começa a ruir, revelando uma história muito mais complexa e sombria. O filme deixa claro que não há inocentes: nem Linda, nem seu chefe. Ambos carregam segundas intenções, omissões e estratégias de autopreservação.

Nesse ponto, o longa dialoga com reflexões filosóficas sobre a natureza humana, afastando-se da ideia de que o ser humano nasce como uma “página em branco”. Pelo contrário, Socorro! sugere que somos moldados por interesses, ambições e impulsos que emergem com mais força quando somos colocados em situações extremas. A ilha deixa de ser apenas um espaço físico e passa a funcionar como um laboratório moral.

Roteiro

O roteiro investe em sucessivas reviravoltas, muitas delas sustentadas por situações que o público aceita facilmente. Um exemplo é quando Linda afirma ter encontrado uma faca no mar. Dentro do contexto do acidente aéreo, essa explicação parece plausível. Para espectadores brasileiros, especialmente aqueles acostumados à realidade de mares poluídos e cheios de detritos, essa justificativa soa ainda mais crível, reforçando a suspensão da descrença.

A narrativa se intensifica com a entrada de novos personagens, entre eles a noiva do presidente, que se recusa a aceitar a morte do companheiro e segue em sua busca. Ao encontrar a ilha, ela acaba sendo vítima de uma armadilha arquitetada por Linda. A personagem utiliza o conhecimento prévio do terreno para provocar a morte tanto da noiva quanto do guia que a acompanhava, consolidando sua transformação definitiva dentro da história.

Visual

Visualmente, o filme aposta em um estilo que flerta com o grotesco. Há excesso de cenas envolvendo vômito, insetos sendo ingeridos e situações que provocam repulsa física no espectador. Embora a violência gráfica não seja o maior problema, o uso recorrente do nojo acaba se tornando cansativo e, em alguns momentos, gratuito. Destaca-se também uma cena envolvendo a morte de um javali, que pode ser particularmente desconfortável para pessoas sensíveis à violência contra animais — um alerta importante para o público.

No desfecho, o presidente descobre a verdade ao encontrar evidências da morte da noiva. Desesperado, ele entra em colapso, enquanto Linda demonstra total controle da situação. A inteligência estratégica da personagem, inclusive, já é antecipada no próprio material promocional do filme. No fim, ela emerge como vencedora absoluta: transforma sua experiência na ilha em um livro best-seller, alcança fama, sucesso e uma vida luxuosa que remete, de forma quase irônica, a um universo “cor-de-rosa” e artificial, semelhante a uma Barbie vivendo seu auge.

Finalmente

Apesar das boas atuações — especialmente da atriz que interpreta Linda, que incorpora a personagem com precisão — e de momentos pontualmente engraçados e bizarros, como a cena do personagem masculino comendo uma barata do mar, o filme não consegue manter um ritmo envolvente. Há passagens previsíveis e outras que se arrastam, a ponto de o interesse do espectador diminuir consideravelmente. A trilha sonora, pouco marcante, também não contribui para criar tensão ou envolvimento emocional.

Socorro! não é um filme que convida à revisita. Talvez funcione como uma experiência única, que pode ser redescoberta apenas caso a memória falhe com o passar dos anos. Seu mérito está mais nas provocações morais e na atuação do elenco do que na construção narrativa ou estética.

Nota final: ★★☆☆☆ (2/5 estrelas)
Crítica por Joyce Oliveira

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here